sábado, 9 de junho de 2012

9) O meu cabelo no verão (Amantes do Verão)

9) O meu cabelo no verão (Amantes do Verão): natural e solto!

Acho que meus cabelos não mudam entre o verão e o inverno. Lavo, passo condicionador, creme de pentear, trato bem meus cachos para poder deixá-los soltos e vistosos para quem quiser ver. Prendo quando tenho calor.


Mas nem sempre foi assim.

Eu confesso que por muitos anos fui vítima do movimento alisamento. Meus cabelos são muito volumosos, em grande quantidade, armam com uma facilidade enorme. Na adolescência, como muitas meninas com os cabelos como os meus, eu era escrava do alisamento.

Digo escrava porque não há na face da terra termo que melhor defina o processo de agressão aos cabelos em nome da "estética". Em primeiro lugar, que fique bem claro, eu nunca gostei de dar escova/chapinha nos cabelos. Nunca tive paciência para isso. Nem dinheiro. Ir pro salão, passar horas, alguém lhe esquentando/queimando a cabeça, depois cabelos lisos, touca para mantê-los por algum tempo no lugar, não pode lavar por alguns dias (num calor absurdo!) e ainda ter que pagar por isso, é demais!

Já que eu não tinha nem tempo nem dinheiro para fazer escova/chapinha regularmente, fui para uma solução ao mesmo tempo mais conveniente e mais radical. O alisamento. Na época, as pessoas chegavam como a bruxa da branca de neve, oferecendo a bela maçã. Ou seja, os cabelos menos volumosos, mais fáceis de pentear, que podem ficar soltos, que não ficam "feios". Tudo isso sob os olhos atentos e condizentes da minha mãe e irmã mais velha, elas também escravas da técnica. Não podia me ver com os cabelos soltos e rebeldes que vinham prender "menina, que cabelo doido! Vamos dar um jeito nisso!". E me levavam para o cabeleireiro.

Pois o alisamento é assim: leva mais tempo do que para fazer escova/chapinha, e esta é regularmente a última etapa da tortura. Isso significa uma manhã ou uma tarde inteira, enquanto você poderia estar fazendo qualquer outra coisa. Como estudar, brincar, sair com os amigos. Colocam um produto com um odor forte e desagradável (além de perigoso, mas isso eles não dizem), geralmente a base de amônia. Este produto passa um certo tempo agredindo queimando, dissolvendo "agindo" nos cabelos. Depois disso, fazem uma hidratação potente para tentar consertar a desgraça que foi feita. Desta vez com produtos bem cheirosos para tentar abafar o mau cheiro do colega (o que, obviamente, não funciona).

Quando a tortura termina, depois da escova, você vai para casa. O cheio fica entranhado em si durante uns 2 dias. Nas roupas, no travesseiro, nos lençóis, em tudo o que a gente toca. E a gente faz de conta que nada aconteceu, que ninguém sente o cheiro. Claro que todo mundo sente, mas é regra social não comentar. Todo mundo sabe o que é, mas ninguém fala nada. Porque sabe que será a próxima da fila.

Além da agressão aos cabelos, que os deixa sem brilho, fracos, quebradiços, e nos obriga a ir a cada vez mais ao cabeleireiro em busca de soluções milagrosas como hidratação ultra-mega-potente, ficamos dependentes do cabeleireiro, e escravos do próprio cabelo, pagando pela desfeita que fizemos com eles.

Tudo isso para chegar no trabalho/escola/festa/sociedade em geral com um cabelo esquálido, sem brilho, quebradiço, igual a todo mundo. E "liso". Para fazer bonito e combinar com o vestido.

No primeiro dia, tudo é lindo, todo mundo fica satisfeito. O cabeleireiro, por ter trabalhando e ganhado seu dinheirinho, sabendo que você vai voltar, e você com o cabelo "liso", a cabeça queimada, doendo, fedendo a amônia, mais pobre, tendo perdido uma tarde inteira, mas feliz por ter os cabelos "tratados", como se cabelo cacheado/crespo fosse uma doença.

Mas depois, passado o tempo e a escova com o primeiro banho de cabeça, com a chuva, ou com o suor em excesso (corriqueiro na minha terra), os cabelos começar a crescer. Esta é a Lei natural das coisas. Os cabelos crescem a partir da raiz, a parte mais exposta do seu rosto, perto da testa. Mas crescem crespos/cacheados, como sua natureza manda! E ai fica aquela coisa crespa na raiz e lisa na ponta. Um retrato horrendo, mas fruto colhido do alisamento.

E aí a gente corre mais uma vez para o cabeleireiro, que fica feliz em vê-lo de volta "Mas por que não veio antes??? Olha essa raiz crescendo!!!" E a tortura começa de novo.

Este ritual se repete a cada 2-3 meses, dependendo do ritmo de crescimento dos cabelos e do seu dinheiro e tempo disponível para jogar fora gastar.

Pois, queridos amigos, este ritual aconteceu comigo durante um bom tempo, leia-se anos. A partir do momento em que eu vi para cá (França), o que pode-se dizer que foi minha salvação. Os cabeleireiros são mais caros, os produtos não são os mesmos, o dinheiro era escasso, e eu não tinha tempo para fazer isso tudo. Abandonei. Nos primeiros meses, raiz crescendo e cabelo alisado eram horríveis! Mas ai eu me rebelei, cortei bem curto e de lá pra cá digo não ao alisamento! E à escova/chapinha!

Eu ainda não estou completamente curada, pois leva anos até que as feridas de todas as agressões capilares cicatrizem. Mas eu me esforço em deixá-los soltos, por mais volumosos que eles estejam. Creio que seja esta a melhor maneira de deixá-los crescer e valorizar os cachos, sem deformá-los quando eu amarro. 

Quem quiser me ver bonita, vai ter que aturar meus cachos! Naturais, por favor! E muito mais bonitos, brilhosos, macios, ...

Chega de ser escrava da "moda" dos cabelos lisos! Resolvi me assumir como eu sou e hoje sou muito mais feliz!

5 comentários:

  1. Oi Kati,
    Concordo em pleno!
    Entendo que moda é adequar o que gosta, o que fica bem a si... a moda tem de se adaptar a nós e não sermos nós a adaptar à moda.
    Beijo,
    Vânia

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    1. Vânia, também não consigo entender as loucuras que as pessoas fazem em nome da moda. Acho que o principal é cada um olhar para si e ver o que fica bem, com um pouco de senso crítico e de espelho!
      Beijos

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  2. Kati querida, lendo seu texto chorei e ri com vc, pois tudo o que vc passou também passei, fui muitos anos tbém escrava do meu cabelo, já menina de 9 anos minha mãe me levou à minha primeira tortura, depois da primeira vieram muitas e muitas. Até um dia que cheguie a conclusão que nossos cabelos, apesar de crespos, são tão saudáveis e fortes quanto os lisos, pois pra aguentar o que eles aguentaram e aguentam, só sendo muito, muito fortes, e olha que a maioria são finissimos. A única coisa que me chateia é que eles não ficam tão brilhantes e cheio de luz quanto os lisos, pois os cachos não permitem, mas graças a Deus são muito saudáveis e macios. Confesso qie ainda preferiria lisos, mas se é para tê-los saudáveis que sejam como Deus me deu né. Adorei seu post. Bjos

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    1. Josy, é a situação de muitas e muitas pessoas, meninas que começam novinhas a alisar os cabelos. São poucas as que, mais tarde, conseguem se liberar dessa escravidão. Espero que com essas campanhas que eu estou vendo pela internet as pessoas consigam ter mais respeito por si mesmas e consigam compreender a beleza nos cabelos cacheados e crespos. Tantos anos na ditadura do cabelo liso, é realmente difícil para muitas pessoas aceitar que outros tipos de cabelo também são bonitos.
      Beijos e parabéns pela decisão de deixar de alisar!

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  3. nossa, encontrei minha alma capilar gemea! hahahaha descrevesse perfeitamente todas as sensacoes que tive naquela epoca tenebrosa da minha vida.

    olha, nao vou dizer que agora eh facil, porque nao eh. cabelo cacheado exige um certo trato (pelo menos o meu, porque vejo menina que nao ta nem aih), mas naaada se compara a vida de antes!

    :D

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