sexta-feira, 20 de julho de 2012

Lembranças

Comecei muito cedo na cozinha. Na época em que eu precisava ficar em pé numa cadeira para ajudar a bater o bolo.
Sempre gostei dos cheiros, das misturas, dos ingredientes frescos.
Gostava do cheiro da goiaba no fogo com açúcar para virar doce.
Eu adorava meter a mão nos sacos de feijão de todas as cores na feira, a sensação dos grãos massageando a pele.
Eu brincava com as batatas rolando pelo chão quando minha mãe estava arrumando as compras.
Eu brincava com as favas coloridas, que me dava a vizinha da minha avó.
Adorava subir nos pés de caju, de manga, de jambo, ir colher as acerolas no pé (e ainda comer algumas verdes).
Eu gostava de identificar as mangas que estavam maduras ainda no pé, para evitar que elas caíssem. Sem contar que os galhos da mangueira eram um ótimo esconderijo para as brincadeiras de esconde-esconde.
Eu gostava de fazer árvores de natal com as folhas de jambo. E de brincar de macarrão com suas flores.
Eu gostava de descascar a laranja-cravo (mexerica), retirar toda a parte branca antes de comê-la.
Eu gostava de retirar as sementes e a pele das uvas para comer somente a polpa.
Eu sempre gostei de feijão com farinha, mas eu comia ainda melhor quando me faziam bolinhos com as mãos.
Eu quebrava bolacha cream cracker em cima da minha sopa (passada no liquidificador, na época). Uma colherada com um pedacinho de bolacha em cima. Mas não gostava quando a bolacha amolecia.
Eu adorava sentir o cheiro das castanhas de caju torrando numa lata de leite com alguns furinhos...e de poder comê-las ainda quentes, retirando a casquinha.
Nos dias de poda dos coqueiros (eram 7 em casa), a minha refeição era baseada em água de coco e polpa de coco verde. Feliz da vida. E ainda sobrava coco verde e seco para vários dias. Eu gostava de comer a maçã do coco (o coco germinado), esponjosa e crocante, adocicada e perfumada. Comia até enjoar. E coco ralado com leite em pó e achocolatado, mas direto na quenga do coco recém raspada. E por falar em coco, quando era eu que raspava, sentada em cima do rapa-coco é claro, eu fazia de proposito em deixar lascas grandes de coco para ir comendo enquanto raspava.
Eu gostava de debulhar feijão verde, novinho, trazido da feira.
E ficava feliz da vida quando encontrava uma "boneca" de milho.
Eu ajudava a catar feijão à noite, que ficava de molho para ser cozido no dia seguinte.
E eu adorava amendoim cozido, que minha mãe cozinhava em quantidade, depois congelava. E no sábado, preparando o almoço ou fazendo faxina, petiscávamos juntas. Ele ainda frio, mas gostoso... quando fiquei maior, o amendoim vinha acompanhado de um golinho de Martini Rosé.
Eu adorava as tardes fazendo biscoito. O cortador de biscoito em forma de cubo, cada face com uma forma. A receita não era das melhores, o biscoito ficava duro feito pedra desde que esfriava, mas não tinha importância.
Lembro das batalhas de guardanapo que surgiam sempre que tinha aniversário na família. Os cachorros-quentes eram feitos com carne moída e salsicha em pães minúsculos (pão catitinha), enrolados com guardanapo, guardados num isopor. A batalha começava entre um tio e uma tia, e se espalhava entre todos os primos, crianças e adultos. Os guardanapos enrolados eram nossas armas.
Lembro das queijadinhas, dos salgadinhos de queijo, todos feitos com muito carinho pela minha avó e tia-avó, que não faltavam em nenhuma festinha.
E dos caranguejos do sábado. Começávamos a comer de 12h, só saíamos da mesa à 17h, quando não sobrava mais nenhum na panela e todo o caldo tinha virado pirão. Estas tardes eram geralmente seguidas de jogos como dominó, baralho ou Imagem e Ação, e viravam motivos de muitas risadas.
E o sururu (pequeno mexilhão) de coco da praia, que me fazia comer feliz cebola, pimentão, tomate e coentro, quando nenhum outro prato conseguia.
Lembro das pizzas de massa de pão cru, incrementadas com queijo, presunto, azeitonas e o que mais a gente tivesse em casa.
Lembro das coxinhas de galinha, queimando os dedos ainda quentinha feitas em casa para comer até a saciedade!
E do ritual para fazer batatas fritas: cortá-las, mergulhar na água fria com um pouco de álcool, depois enxugá-las para então fritá-las em óleo quente. E de comê-las antes de todo mundo. Eram raros os dias de batata frita lá em casa.

Eu tinha horror às lesmas que apareciam dentro da alface ou da couve-flor. Será que hoje com tantos agrotóxicos ainda é possível encontrar lesmas ou outros bichinhos junto com os legumes? Acho que ainda prefiro a época em que podíamos encontrar lesmas nos vegetais... Os de hoje em dia nem as lesmas podem comê-los.
Eu não gostava de descascar inhame e chuchu por conta da baba gosmenta que eles soltavam. E diziam que a baba do chuchu servia para secar verrugas. Testei algumas vezes, sem sucesso.
Sempre que eu derrubava arroz no chão, minha mãe não se importava, dizia para deixar, e que arroz derramado era sinal de sorte.

E você? Quais as suas recordações da infância?

Este texto foi publicado de maneira permanente na página Quem sou eu.

16 comentários:

  1. Kati que post mais gostoso de ler!!!Vc me trouxe a lembrança das brincadeiras que sempre fazia nas árvores de frutas da casa da minha mãe. Subir no pé de limão, apanhar mangas cheirosas e maduras e saboreá-las ali mesmo, embaixo do pé....um delícia!!!
    Bjsss e tenha um lindo dia!
    Mel

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    1. Que bom, Mel!
      Essas lembranças vieram tão fortes esta semana que eu resolvi escrevê-las. Eu adorava subir nas árvores, colher as frutas... Se depender da gente, as mangueiras tem muita história pra contar, né?
      Beijos

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  2. Uma infância bem rica e cheia de momentos bons. A minha infância foi semelhante e adorei e ainda hoje digo que sou uma pessoa "rica" pela sorte que tive. As minhas filhas são umas sortudas porque ainda têm oportunidade de viver uma infância livre e no meio da natureza

    bom fim de semana

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    1. Paula
      tens razão. Quando a gente tem esse contato com a natureza, a gente cresce com a impressão que aproveitou plenamente a infância.
      Que bom que suas filhas também possam desfrutar de tudo isso.
      Beijos

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  3. oi querida ..tenho tanta lembranças tambem...minha vó nas ferias preparava para mim um docinho de calda de jenipapo que era muito bom para a saude e se chama jenpapada ..coloca-se o jenipapao para chorar no açucar e toma aquelq caldinha ...que lembrança boa ..ainda sinto esse cheiro ..qu delicia
    amei sua postagem me fez chorar de alegria com as lembranças
    bjão

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    1. Sadhia
      Você me fez lembrar de um lambedor de jenipapo, que a minha avo fazia, acho que era a mesma coisa! Minha mãe fazia também de beterraba e de umas ervas, nunca soube do quê, para curar gripes, resfriados, mau-olhado e tudo mais!
      Beijos

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  4. Me ha encantado tu entrada de hoy Kati, que bonito recordar los tiempos pasados, llenos de buenos momentos, con tu entrada me has echo recordar mi infancia, un beso

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    1. Fico feliz em saber que as minhas recordações te fazem pensar na tua infância.
      Bons momentos devem ser relembrados de vez em quando.
      Beijos

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  5. Oi Kati,
    Adorei o post e reavivou-me muitas lembranças semelhantes, bendita infância, livre para correr, comer fruta em cima das árvores, a caça aos caranguejos, as barrigadas de pitombas, mangas, laranjas, bananas tantas e inesquecíveis ótimas recordações.
    Feliz dia do amigo, bom final de semana, beijo,
    Vânia

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    1. Vânia
      quando começamos a lembrar de algo, logo outras recordações aparecem, como um turbilhão. Acho que o texto causou um pouco este efeito em você.
      Faz tão bem recordar bons momentos.
      Beijos

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  6. Olá Kati,
    memórias fantásticas que são como tesouros que te acompanharão toda a vida!
    Desejo que continues a construir muitas memórias boas, possa o teu tesouro ser enorme.
    Bjs

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    1. Lenita
      Sim, são tesouros dentro de um baú, que quando abrimos, não vemos tudo com o primeiro olhar, mas basta tirar um do lugar e outros aparecem, depois estamos cercados de recordações!
      Umas são boas, outras tristes. Mas com todas podemos tirar lições, aprender e seguir em frente.
      Beijos

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  7. Que post lindo,ter lembranças boas é muito bom
    Feliz dia do amigo beijos

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    1. Luci, é mesmo. São coisas que não tem preço.
      Beijos

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  8. Feliz dia do amigo Kati!
    Lendo esse post lindo me levou a infância, quanta coisa boa vivemos e hoje as crianças não conhecem metade das coisas que fazíamos!
    Beijos querida, bom final de semana!
    Ana Claudia

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    1. Ana,
      é verdade... muitas crianças de hoje não sabem o que é brincar na rua, não se sujam com terra, areia, não sobrem em árvores, não curtem a natureza, e todas as coisas que ela pode nos oferecer.
      Mas acho que estamos voltamos às nossas origens, buscando cada vez mais as coisas simples e o contato com a natureza. Se não o fazemos, já é hora de começar!
      Beijos

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